O médico plantonista, o dentista ou o psicólogo que recebe de um hospital ou clínica por RPA costuma ver o pagamento chegar já menor, com INSS e Imposto de Renda descontados na fonte, e o IRRF pode levar até 27,5% do valor. O recibo de pagamento autônomo é o documento correto quando o serviço é eventual e sem vínculo, mas, para quem atende com frequência e em volume nesses locais, ele quase sempre sai caro. A mesma receita, faturada pela sua empresa no Simples Nacional, pode ser tributada a partir de 6% no Anexo III, com o Fator R no lugar certo. Ou seja, se o seu pagamento de plantão vem sempre com uma mordida grande de imposto, isso costuma ser o sinal de que já passou da hora de comparar o RPA com a PJ.
O que é o RPA e quando ele faz sentido
O RPA é o recibo que a empresa emite ao pagar um profissional autônomo, pessoa física sem CNPJ, por um serviço prestado. Serve para formalizar o pagamento de quem trabalha por conta própria, de forma eventual, sem subordinação e sem vínculo de emprego, como define a Lei 8.213/91.
A palavra-chave aqui é eventual. O RPA foi pensado para o serviço pontual, não para a rotina. Quando o mesmo profissional passa a atender de forma habitual, com horário e subordinação a um único tomador, essa relação pode ser reconhecida como vínculo empregatício, o que gera passivo para as duas partes. Por isso, para o profissional de saúde que já atende sempre nos mesmos lugares, o RPA costuma ser um arranjo de transição, não uma solução definitiva.
Quais impostos são descontados no recibo de pagamento autônomo
Três tributos podem incidir sobre o RPA, e dois saem direto do bolso do profissional. O terceiro, o ISS, depende do município.
- INSS: a empresa retém 11% sobre o valor pago, respeitando o teto do INSS, que em 2026 é de R$ 8.475,55. Na prática, a retenção não passa de R$ 932,31 por mês, mesmo em pagamentos maiores.
- IRRF: o Imposto de Renda é retido pela tabela progressiva mensal, que chega a 27,5%. A base é o valor bruto menos o INSS e as deduções, como dependentes. Desde 2026, quem recebe até R$ 5.000 no mês é isento e há redução até R$ 7.350, conforme a tabela oficial da Receita Federal.
- ISS: imposto municipal, com alíquota de até 5% conforme a cidade. Quando o profissional tem cadastro na prefeitura, costuma recolher de forma anual, sem nova retenção a cada recibo.
Vale um detalhe que passa despercebido: além do que é descontado do profissional, a empresa que paga o RPA ainda arca com a contribuição patronal de 20% sobre o valor, mais o RAT, quando está no regime normal. Esse é um custo do hospital ou da clínica, não do profissional, e ajuda a entender por que muitos tomadores preferem contratar uma PJ a pagar autônomos por RPA.
Por que o profissional de saúde que vive de RPA costuma pagar imposto demais
O problema não é o RPA em si, e sim usá-lo como forma fixa de receber. Como pessoa física, o profissional é tributado pela tabela que termina em 27,5% e não escolhe regime nem aproveita a lógica do Simples. Faturando a mesma receita pela empresa, o serviço de saúde pode ficar no Anexo III, a partir de 6%.
Segundo a Pamela Salles, contadora (CRC/SC-042560/O-7), especialista em Departamento Fiscal e Tributário e sócia da Método Contabilidade, é comum o médico que faz muitos plantões continuar recebendo tudo por RPA por comodidade, sem perceber que a diferença de imposto para a PJ, ao longo do ano, paga com folga o custo de manter a empresa. A recomendação dela é fazer a conta caso a caso, comparando o líquido do RPA com o cenário da pessoa jurídica.
A conta muda de acordo com o volume. Para quem tira um plantão ou outro, o RPA resolve. Para quem faz do plantão a maior parte da renda, a mordida de 27,5% no Imposto de Renda pesa mês após mês e torna a PJ bem mais vantajosa.
Quando compensa trocar o RPA pela PJ
Compensa quando o recebimento deixa de ser eventual e vira recorrente. A partir daí, faturar pela empresa costuma reduzir a carga de forma expressiva, desde que o enquadramento esteja certo: no Simples, o Fator R decide se o serviço fica no Anexo III, a partir de 6%, ou no Anexo V, a partir de 15,5%.
Abrir a PJ na saúde tem exigências próprias, como o cadastro no CNES para clínicas e profissionais, então a decisão não é só tributária. Mesmo assim, para quem já recebe volume por RPA, o ganho costuma justificar o passo. E há um efeito colateral positivo: como o tomador economiza a contribuição patronal ao contratar uma PJ, muitos hospitais e clínicas veem com bons olhos essa mudança.
Para quem já fatura pela empresa e realiza procedimentos, e não só consultas, existe ainda uma discussão de regime: no lucro presumido, a equiparação hospitalar reduz a base de cálculo do IRPJ e da CSLL.
Recebe de hospital ou clínica por RPA e sente que paga imposto demais?
A Método calcula quanto você paga hoje e simula o mesmo recebimento como PJ, com o Fator R no lugar certo.
Dá para receber por RPA e faturar pela PJ ao mesmo tempo?
Dá, desde que as fontes sejam diferentes. Nada impede atender no consultório particular ou faturar plantões pela empresa e, ao mesmo tempo, receber por RPA de um serviço realmente eventual em outro local. O que não se sustenta é dividir a mesma relação, com um único tomador, entre RPA e nota da PJ só para reduzir imposto, porque a Receita enxerga isso como fracionamento artificial.
Como organizar cada rendimento quando se atende em vários lugares é um tema à parte, que detalhamos em médico pessoa física ou jurídica. A lógica vale para dentistas, psicólogos e demais profissionais da saúde que circulam entre consultório, hospital e clínica.
Perguntas frequentes
O que é o RPA?
RPA é a sigla de recibo de pagamento autônomo, o documento que uma empresa emite ao pagar um profissional autônomo, pessoa física sem CNPJ, por um serviço prestado. Ele formaliza o pagamento e registra as retenções obrigatórias, como INSS e Imposto de Renda. É indicado para serviços eventuais, sem vínculo de emprego nem subordinação.
Quais impostos são descontados no RPA?
Do profissional saem o INSS, com 11% até o teto de R$ 8.475,55 em 2026, e o IRRF, pela tabela progressiva que chega a 27,5%. Pode haver ainda o ISS municipal, de até 5%. Além disso, a empresa que paga arca com a contribuição patronal, mas esse valor é custo do tomador, não desconto do profissional.
Médico pode receber por RPA?
Pode, quando o atendimento é eventual e sem vínculo, como um plantão avulso. O ponto de atenção é a frequência: se o médico passa a atender sempre no mesmo local, com rotina e subordinação, o RPA deixa de ser adequado e a relação pode ser tratada como vínculo. Nesse cenário, faturar pela PJ costuma ser mais seguro e mais econômico.
Quando vale a pena trocar o RPA pela PJ?
Quando o recebimento vira recorrente e o volume cresce. Como pessoa física, a mordida do Imposto de Renda chega a 27,5%; pela empresa no Simples, com o Fator R no Anexo III, o serviço de saúde parte de 6%. A diferença ao longo do ano costuma cobrir o custo de manter a PJ, mas vale simular o caso concreto antes de decidir.
Receber sempre do mesmo hospital por RPA pode virar vínculo?
Pode. O RPA pressupõe serviço eventual e autônomo. Quando há habitualidade, horário e subordinação a um único tomador, a relação pode ser reconhecida como vínculo empregatício, com passivo trabalhista e previdenciário para as duas partes. Por isso, o recebimento recorrente por RPA é um sinal de que a estrutura precisa ser revista.



